Gallaghers em vôo “solo”

Oasis é o famoso “ame-o ou deixe-o”. Desde o começo da década 90, a banda foi uma pedra no sapato de qualquer um que a acusasse de pegar emprestado mais do que devia dos grandes nomes do rock, isso sem negar ou se desculpar por usar melodias dessas bandas descaradamente. Juntando essa polêmica (quem não usa e abusa do que já foi “criado”?) aos altamente documentados conflitos internos entre os dois irmãos, chegamos ao típico corpo de trabalho de qualquer banda de rock n’ roll decente. Os Gallaghers chegaram com aquele drama de Keith vs. Mick mas também com o espírito de Robert & Jimmy (e a genética, claro, botando mais lenha na fogueira). Algumas bandas engolem a raiva e com paciência continuam com a carreira para o bem de seus próprios bolsos. No caso do Oasis, o ódio genético de irmão vs. irmão foi para Noel (o verdadeiro arquiteto dessa banda) o suficiente para desistir. Foi assim mesmo: Cansei, chega e tchau

Agora vem a continuação do drama: a “batalha” dos discos de carreira solo. Liam se juntou com os marionetes de Noel e criou o Beady Eye. Enquanto a trupe, agora sob o comando de Liam, aparecia em quase todos os programas de talk show americano, Noel tomou seu tempo e criou o coletivo High Flying Birds assumindo os vocais. Entrar no papel de vocalista oficial não é novidade: quando Liam resolvia dar um piti e não se apresentar, Noel carregava o set inteiro da banda sem o frontman. Com isso em mente, fica mais fácil analisar os dois discos

 High Flying Birds: para quem esperava algo mais pessoal e folk de Noel (eu mesmo esperava algo nessa linha) vai ficar surpreso com a familiaridade do álbum, até porque se trata do arquiteto-mestre do Oasis. Muitos reclamam que, para uma declaração de independência, High Flying Birds é extremamente nostálgico. Na verdade, acredito que seja a pura essência de Noel, é o que o cara ama fazer e, mais importante, é o que ele SABE fazer. Entre arranjos de cordas, coros, trompetes, etc. 80% deste ábum é direcionado para canções épicas em grandes arenas. Quando você analisa um pouco mais, vai perceber que não há nada no currículo de Noel que diga “folk introspectivo”. Quem mais hoje em dia ainda se atreve a fazer um solo absurdo de guitarra sobre de um canção orquestrada (I Wanna Live in a Dream) e ainda dar uma credibilidade invejosa para a mesma?

Mesmo com a nostalgia passeando pelas faixas de High Flying Birds, coisas intrigantes acontecem pelo repertório: músicas como “AKA… What a Life!” se apoiam em um piano crescente, bateria marcada quase à beira de um sampler eletrônico e um Noel melancólico. “If I Had a Gun…” parece uma simples canção mas, na medida em que você escuta a mesma inúmeras vezes, você percebe camadas e mais camadas de sons escondidos por debaixo dos acordes que provavelmente apenas um cachorro consegue identificar. Em “Let the Lord Shine a Light on Me” (um lado-b desse disco de estreia que vale MUITO a pena procurar), Noel começa criando um clima quase etéreo e ao mesmo tempo blueseiro enquanto a música vira uma monstruosa balada com um “solo de voz” por uma cantora (nome?) potente no melhor estilo épico do Oasis (lembram de Great Gig In The Sky do Pink Floyd?).

Fico imaginando se Noel seguisse alguma experimentação como “Setting Sun” (junto com Chemical Brothers) mas apenas “AKA.. What a Life!” dá um gostinho do que seria esse disco. Para uns, esse álbum é uma oportunidade perdida de fazer algo diferente. Para outros, mais um demonstração da genialidade de um excelente compositor de rock n’ roll. A única certeza é que, com High Flying Birds, fica claro o que todos já sabiam, Noel é o Oasis e, até a reunião dos irmãos Gallagher (claro que vai rolar), o mais velho vai navegar por águas conhecidas com pequenas fugas de rota uma aqui e outra ali (vai rolar um projeto com o grupo Amorphous Androgynous).

 Beady Eye: de certa forma, soa apenas como Oasis sem Noel (que não vê nada de errado com música moderna). Liam sempre foi o sujeito cegamente apaixonado pelos anos 60. Basta ouvir “The Roller” e perceber que a progressão dos acordes é xerocada diretamente de “All You Need Is Love”. Qual o motivo então de Different Gear, Still Speeding ter um feeling tão renovador quanto os últimos dois (e excelentes) álbuns do Oasis? Simples, esse é um Oasis onde Liam dá as cartas e o rock n’ roll está no volante com um espírito selvagem de rebelião embebedada, apesar de seguir os padrões óbvios de uma canção de rock.

Trata-se de pura diversão psicodélica no estilo dos primeiros álbuns do Oasis, e por esse motivo, provavelmente será o disco solo dos irmãos que vai agradar a um número maior de fãs. Instinto dita a regra mesmo que haja uma leve queda na qualidade das letras, o que não é nenhuma surpresa. Beady Eye é mais uma expressão de toda a vontade de extrapolar que Liam simplesmente não sentia perto de Noel. Different Gear, Still Speeding é um verdadeiro emulador de todas as fantasias sessentistas do caçula Gallagher. O destaque nesse disco, que encorpora bem o que é o Beady Eye e onde difere do Oasis, é a faixa (aham) “Beatles and Stones“. Eles copiam, mas copiam muito bem.

 Muitos fãs do Oasis não se preocuparam quando a notícia do fim do grupo circulou pela internet, no fundo todos já pensavam “Bom, agora vamos ter duas versões de Oasis pra curtir e muito mais briga!”. É exatamente isso que aconteceu: enquanto Beady Eye vai alimentar noitadas alcoólicas e acompanhar o furto de cones (ha!), o High Flying Birds vai tomar conta das suas epifanias matinais e da sua ressaca moral. O que importa é que saímos ganhando em grande estilo.

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