TOOL : Ferramenta espiritual

Prelúdio do meu iluminismo:

1994 – Led Zeppelin e outras bandas setentistas sempre foram trilha sonora predominante durante os  meus 13 anos de presença nesse planeta. Mãe e Pai sempre entupindo meus ouvidos com retórica hippie-materialista. Eu regurgitava tudo para a molecada da minha rua. Sem efeito. Era mais legal brincar de carniça.

1995 – Mesmo apaixonado por Zeppelin, Doors e Floyd, alguma coisa estava faltando. Seria isso um sintoma do meu cansaço com essas bandas? Impossível. Sempre que o LPs rodavam na vitrola (funcionando 100% até hoje) era como se eu estivesse cantando “Dancing days are here again, as the summer evenings grow…” pela primeira vez. Alguma coisa estava errada.

1996 – Eu conhecia todas as lojinhas música em Brasília: Da WOM no final da Asa Sul, passando pelas discotecas bizarras do Conic até o sebinho de LPs na 216 Norte. Durante minhas caminhadas na Asa Norte, exatamente na 310, me deparei com uma loja minúscula chamada Sounds Music. Claudio era o dono. Claudio viajava mensalmente para New York e trazia os álbuns mais loucos possíveis. Durante minha aquisição de In The Wake Of Poseidon do King Crimson, Claudio me indicou uma banda. A banda era Tool. O álbum era Ænima.

1997 – Depois de um ano inteiro ouvindo NADA mais além de Tool e sua obra de arte chamada Ænima, eu percebi o que não se encaixava com as bandas setentistas que eu amo até hoje: A linguagem não era a mesma. O som não representava minha época. As letras não descreviam o estado da minha consciência. E assim, Tool se tornou o meu despertar espiritual.

Ænima

  Tool é exatamente isso: uma ferramenta para uma consciência maior. Um catalisador para o processo de “se encontrar” ou descobrir seja lá o que você precisar descobrir, um LSD em formato de ondas sonoras com efeitos colaterais 100% benéficos. Com Tool, os conceitos de Timothy Leary começaram a perambular pela minha cabeça “Always think for yourself and question authority”. É verdade, trata-se de um conceito setentista, mas sob um novo olhar, um novo ângulo. Isso tudo na cabeça de um moleque de 16 anos.

Dr. Timothy Leary

  A musicalidade de Tool se baseia muito no ritmo incomum. Tempos quebrados e inovadores que carregam letras cheias de referências espirituais, apocalípticas e lisérgicas. A honestidade em representar a feiúra do materialismo é tema recorrente em todos os discos do Tool, ao mesmo tempo em que a beleza da raça humana como um todo é exaltada.  Diferente de King Crimson, a sessão rítmica de Tool não se interessa pelo improviso, mas sim em criar uma atmosfera que segue as análises líricas até um final épico que deixa qualquer ouvinte com a sensação de ter saído de um transe denso. Poucas bandas conseguem emular uma experiência profunda que sincroniza perfeitamente os elementos letra e som.

O fato dos integrantes preservarem o anonimato garante ainda mais misticismo em cima das composições. Por exemplo, em seus shows atuais, é quase impossível enxergar os membros da banda entre as enormes telas com imagens bizarras e metafísicas. Algumas letras, como a da melódica “H.” e da exótica “Stinkfist” ainda são motivo de debate e interpretação em fóruns de fanáticos, mesmo 15 anos após o lançamento de Ænima. Mas essa é a utilidade da banda, pegue uma letra em qualquer disco, e deixe aquelas palavras lhe ajudar de acordo com sua interpretação. É difícil rotular a banda: apesar de serem mais voltadas para o peso do rock progressivo, as estruturas musicais são ricas em detalhes melódicos e efeitos (baixo, guitarra e bateria) hipnóticos. Ta ai, “hipnótico” é um termo justo para explicar Tool.

Em 2001 eu ainda morava nos EUA e esse foi o ano em que Tool lançou mais uma obra de arte: Lateralus.

Lateralus

 Lateralus é, ao mesmo tempo, o mais acessível e o mais profundo. Um CD tem 80 minutos disponíveis para gravação. Lateralus utiliza 79 minutos e 58 segundos. Não existe desperdício: cada composição e cada interlúdio têm um motivo pré-determinado. Enquanto algumas faixas se desmancham na próxima, outras são apenas introduções: “Parabol” serve de guia espiritual para “Parabola”:

This body holding me, reminding me that I am not alone,
this body makes me feel eternal.  All this pain is an illusion.”

Musicalmente falando, Lateralus conta com a mesma sonoridade complexa de ritmos oscilantes e dinâmica inovadora.  Fica aos ouvidos a faixa de 11 minutos chamada “Reflection” que conta com uma das letras mais enigmáticas da banda e um ritmo….hipnótico. Obs.: A letra começa aos 3 minutos e 42 segundos.

Se essa canção não lhe deixar no mínino intrigado e meditativo, tem algo errado com você. Ela representa muito bem o que é Tool: “Crucify your ego, before it’s far too late, then you’ll come to find that we are all one mind”

Em 2006, morando novamente em terras brasileiras, comprei o último trabalho da banda (até o momento): 10.000 Days.  Apesar do anonimato desejado, este último álbum conta com uma das canções mais pessoais já escritas pela banda, o belíssimo duo de 17 minutos “Wings for Marie” e “10.000 Days”.  Este épico é uma ode à mãe de um dos membros que, paralisada por 27 anos (quase 10.000 dias) por conta de um derrame, morreu durante as gravações deste álbum. É uma canção que evoca um sentimento voyeur, mas é proferida de maneira tão sensível que nunca atinge o melodramático. No resto, o disco conta com letras mais centradas e espirituais, com algumas referências a situações metafísicas.  Trata-se de um conjunto de faixas que trocam a antiga raiva por um sentimento mais introspectivo com cada sessão rítmica trabalhada com precisão extrema.

10.000 Days

Minha transformação de um inconseqüente em um adulto foi como a progressão temperamental desses três álbuns, como se meu envelhecimento seguisse a carreira da banda. De raiva e questionamento (Ænima) para experimentação e misticismo (Lateralus) finalmente chegando ao iluminismo espiritual e aceitação da minha mortalidade (10.000 Days).  Se o texto foi muito filosófico, me desculpem, mas é impossível analisar Tool de outra maneira. Uma banda que até hoje, já me orientou em inúmeras situações. Aguardo ansiosamente o próximo álbum e a próxima fase do meu crescimento espiritual. Meu Ajna (o terceiro olho e sexto chakra) abre-se aos poucos…

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4 respostas para TOOL : Ferramenta espiritual

  1. timEU disse:

    Cara, é impressionante como o Google nos faz chegar a lugares totalmente inesperados e ao mesmos tão especiais ao conhecimento. Estava procurando alguns exemplos de músicas enigmáticas para formar minha teoria e compor um post para meu blog e acabei achando esse maravilhoso post sobre uma banda que sempre tive curiosidade mas nunca coragem para dedicar meu tempo para conhecer… Muito bom texto meu caro, irei começar a ouvir Tool hoje mesmo.

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