Opeth: Homenagem à uma herança

O que acontece quando uma banda de death metal não faz mais death metal? Perdem milhões de fãs? Suposição mais do que justa. Mas a resposta correta é: Criam um álbum tão belo, delicado e complexo que exige o máximo de sua atenção para entender o que esta acontecendo nessas 10 composições. Um álbum para ouvir deitado e, de preferência, com headphones. Heritage é um clássico instantâneo.

Heavy/Death/Doom metal, não importa como você chama, é algo que nunca me agradou. Aprecio a agilidade musical de seus adeptos e entendo a importância que essas bandas têm no mundo inteiro. Tão raro quanto um eclipse solar, uma entre as zilhões de bandas desse estilo chama sua atenção. Você percebe um lirismo incomum e uma característica rítmica inigualável.  Opeth é assim, indecifrável e imprevisível. Como o próprio Mikael Arkefeldt (líder) diz: “Odeio quando, ouvindo uma canção qualquer, sei exatamente para aonde vai a melodia. Não há surpresas ou desafios para o ouvido”. Fato, nem tudo deve ser uma jornada sonora para os ouvidos. Nem tudo deve ser complexo, como por exemplo, o jazz.  Mas quando o banal é maioria, a essência do bom gosto move montanhas para descobrir algo respeitável.

Mikael Akerfedlt no centro.

É ai que Opeth entra. Desde seu primeiro álbum (Orchid, 1995), entre interlúdios acústicos clássicos e jazz virtuoso, Opeth vem deixando bem claro para aonde caminha a sonoridade da banda. Menos gritos guturais e mais vocais melódicos porque, convenhamos, Mikael consegue emular a voz de um demônio torturado e ao mesmo tempo, quando precisa, tem a voz etérea de um anjo. Menos distorção nas guitarras e mais ênfase no dedilhado acústico impecável. Uma progressão natural para uma banda que sempre expôs sua paixão pelo rock psicodélico e progressivo dos anos 70. Opeth passou de Slayer/Metallica/Morbid Angel para Beatles/King Crimson/Andres Segovia. Para mim, é como se fosse uma banda com duas carreiras sensacionais.

Heritage soa assim: Cream, King Crimson, Led Zeppelin, Beatles, Rush, Yes, Deep Purple, Camel, Gentle Giants, etc. Não é a toa que o nome do álbum é “herança”. Pianos, flautas e uma atmosfera sombria reinam grande parte de Heritage. O álbum é a ponte perfeita entre a mente esquizofrênica e a sinapse cerebral de uma epifania. Genialidade e loucura em seus respectivos ápices. Realmente não existe outra maneira de caracterizar essa obra de arte. I Feel The Dark é a composição que melhor representa o álbum e em que a voz de Mikael mais impressiona. Obs.: Já nos primeiros 2 minutos, fica claro o poder de criar paisagens sonoras dessa banda sensacional.

Camadas e mais camadas de instrumentos que às vezes, você não identifica de primeira, cortesia da produção de Steve Wilson do Porcupine Tree. As variações musicais dentro de uma mesma composição forçam os ouvintes a checar o visor do cd player para confirmar se ainda estão ouvindo a mesma faixa. E eu não esperava nada mais nada menos com Opeth. Eles já levaram o metal aonde NENHUMA outra banda conseguiu ou vai conseguir. Um momento fraco de carreira do Opeth seria o ápice musical de 99% do resto das bandas atuais no planeta (não é exagero, quem conhece sabe). Chegou a hora da evolução. Heritage inicia um novo capítulo no universo de Opeth (nome de uma cidade mitológica situada na Lua), um capítulo de essência folclórica beirando a perfeição. Música assim esta cada vez mais rara.

Fica ai a dica para quem procura música, não por gênero, mas por excelência. Heritage vai agradar quem quer algo novo e degusta música como degusta uma boa cerveja com os amigos, com prazer. Para os que gostam de ter uma trilha sonora para contemplar paisagens, a sonoridade de Heritage faz exatamente isso, cria novas histórias para paisagens já observadas. Não é um álbum fácil, mas é compensador. Disco obrigatório.

Heritage

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7 respostas para Opeth: Homenagem à uma herança

  1. Marcia Cogitare disse:

    Tua resenha foi tão abissalmente convincente, que vou correr atrás do tal cd.

    Hug

  2. natália disse:

    Essa banda é ESPETACULAR,como você disse um álbum para ouvir deitado e de preferência, com headphones.E adorei sua resenha, bem convicente 😀

  3. natália disse:

    Aham,venho sempre aqui para ler algo bom 😀 e essa resenha foi muito boa !

    Abraço

  4. Cassio Renovato disse:

    É foda, vou ter que comprar essa porra agora!!! A capa já é absurda, ouvi a segunda faixa e li o teu texto, aí fudeu!!!

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