As paisagens sonoras do Oceansize

Vou tentar explicar o som do Oceansize sem mencionar rótulos como post-alternative, post-rock, avant-garde progressivo, alternative rock, space-rock ,etc… Oops. Foi mal. Enfim, o que precisa ser dito, documentado, escrito e repetido por inúmeras décadas é que o Oceansize é simplesmente uma das bandas mais fantásticas da qual você nunca ouviu falar. O grupo decidiu dar fim a sua carreira em 25 de Fevereiro de 2011, sem explicações. Minha única esperança é que muitos ainda descubram os álbuns fantásticos que esses caras lançaram.

Oceansize foi uma das obscuras bandas inglesas que construíram sua modesta reputação em torno da incontestável habilidade em criar uma paisagem sonora épica, sensível e taciturna. Suas influências são tão variadas quanto as habilidades de cada um de seus instrumentistas, seja de Pink Floyd à Tool ou de My Bloody Valentine à Smashing Pumpkins visitando o Jane’s Addiction (O nome da banda foi tirada da primeira faixa de Nothing’s Shocking do Jane’s Addiction). A noção da capacidade em potencial que cada canção pode ter é explorada sem limites pelos membros do Oceansize. Dependendo da música, em vez de 2 guitarras, 4 guitarras são usadas. Quando necessário, 2 baterias e um piano estão presentes. Isso tudo não para dar força as canções mas para colaborar com o efeito de grandeza e amplitude das composições. As letras são cantadas de forma a realçar a tonalidade das guitarras. É o tipo de música que deixa você nas pontas dos pés tentando adivinhar o que vem pela frente. Realmente fascinante.


Para começar a explorar melhor a banda, o álbum Frames é a melhor dica. Junto com títulos de músicas ridiculamente crípticos, melodias que nunca descansam em um único molde, letras fortes (“During the laceration/All you wanna do is cry/At last that realization/How quickly fresh blood dries“) e de significados dúbios (“The latest attempt at closure/Failed after 25 drafts/But I can still retain this/I can still collect“), o disco resume muito bem todas as facetas sonoras da banda. Não é o tipo de música que se escuta por acaso no carro ou caminhando. Cada composição, cada letra e cada nota foram escritas para serem apreciadas em silêncio, sem movimento e de preferência, sozinho no escuro. Fica a dica do épico An Old Friend of the Christy’s com 10 minutos de duração. Em alguns momentos a banda passa pelos ambientes mais pesados do rock, mas não é a regra e sim uma simples exceção para elevar o poder de uma certa frase em uma canção ou outra.

Frames é um álbum sensacional que, pra quem se interessou, aconselho conferir. De qualquer forma, escolhi mostrar aqui a perfeita Commemorative 9/11 T-Shirt desse álbum. Começa bem devagar (as letras entram apenas aos 3:30), criando todo um clima para se transformar em um verdadeiro cenário infinito:

O interesse do grupo nunca foi de fazer seus ouvintes pular e cantar junto e sim, criar paisagens para seus sonhos. Uma trilha sonora para um desenho ou um conto bizarro. Uma pena o fim dessa banda tão perfeita quanto subestimada. Mas os 5 álbuns que deixaram para trás são atemporais e inesquecíveis mesmo que, por agora, ainda não foram devidamente descobertos. Tentei aqui fazer minha parte em divulgar esse verdadeiro tesouro e espero que consigam sentir o que eu sinto com essa banda.

“I check your heart and it still makes a hissing sound, it’s just another name for sorcery. We still believe in what we never see”

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2 respostas para As paisagens sonoras do Oceansize

  1. André disse:

    Um apêndice ao Post:

    No “mundão do convencional” se tornou lugar-comum chamar de artista, todo mundo que faz qualquer coisa na área das artes, o que é uma inverdade cabulosa. Existem Artistas e “artistas”.

    Deixa eu esclarecer: O Artista de verdade (com “A” maiúsculo), não cria porque quer. Ele cria porque sente extrema necessidade de criar, de reproduzir no mundo o que lhe é inerente, inato. O Artista é o ser humano que, ao produzir, está arrancando com as mãos as próprias vísceras e expondo-as para o universo.

    Já o “artista” (com “a” minúsculo), é a subespécie que existe para suprir uma necessidade de mercado. Simples assim. Vive de troca. Produz para vender e mede a qualidade de um trabalho através da porcentagem vendida. Equação surreal, meu!

    O Artista real (agora me dirigindo à área que nos interessa aqui, a Música), prefere tocar para quinze pessoas interessadas em realmente ouvir o que tem a expressar, do que para meio milhão de modistas e baladeiros lotando um estádio. Às vezes nem se incomoda em “correr atrás do sucesso”, e o sucesso chega porque o mercado é esperto.

    Muitas bandas se esgotam: discos de estréias artesanais, caprichados, realmente Artísticos, mas decaem com o tempo, quando se tornam meras cópias de si mesmos, vazias de Arte. Existe uma diferença entre se reinventar e se falsificar. Se não tem nada a dizer, fique calado. O problema é que calado não se lucra. O Artista quando cala interiormente, precisa se calar para fora. Note que existem músicos que ficam anos sem lançar nenhum trabalho enquanto outros o fazem ano a ano. (Já notou que os discos do FooFighters, por exemplo, são sempre 90% dispensáveis? O foda é que em cada álbum você tem sempre uma cançãozinha que seja que é irretocável! Eles deviam aprender a falar só o necessário!)

    Mas, a volta toda foi para chegar no tema do tópico: OCEANSIZE.

    Esse OCEANSIZE é uma banda que não se acha todo dia por aí. Eu não a conhecia e fiquei admirado com a fluência com que “recitam” suas notas. Mais do que julgar se gostei ou não, fica a certeza de ser um trabalho valoroso. Ali está algo reinventado, um tempero que remete ao rock progressivo (já surrado, clichezado, morto-vivo, etc) em uma “releitura de forma” que beira o ineditismo e exala frescor. O disco “Frames” é uma pequena pedra preciosa largada num monte de entulhos e estrumes sonoros que é o cenário musical contemporâneo. É muito fácil chocar os outros tocando um rockzinho farofa com um alfinete espetado no olho. Mas chocar através da construção de melodias, notas inesperadas, overdubs certeiros… isso não é para qualquer um. Dizer apenas o necessário e ser compreendido plenamente é apenas para os sábios e para os Artistas (com “A” maiúsculo). Oceansize é Arte.

    Léo, continue dando as dicas!

    Abraço!

    • chacel disse:

      Muito bem colocado a diferença entre o Artista e o “artista”. É exatamente tudo que procuro nas minhas incansáveis pesquisas do que realmente vale a pena dedicar o tempo dos meus ouvidos.

      Com esse blog, vou fazer minha parte em dedicar o devido respeito.

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