The Black Keys e a estrada para a perfeição.

Comparações entre Black Keys e o White Stripes deveriam ser restritas apenas às referencias de cores no nome de cada uma das bandas e o fato de serem formadas por duplas. Fim de papo. Bom, talvez um pouquinho a influência do blues (qual banda que se preze não foi influenciada pelo estilo mesmo que de leve?).

Existe uma qualidade árdua e “rouca” na sonoridade do Black Keys que nunca vê a luz do dia nos discos do outro grupo aqui mencionado. Mas isso não quer dizer que o Black Keys são blueseiros tradicionalistas: Já fizeram cover de “She Said, She Said” dos Beatles e insistem em uma fascinação com timbre e textura que foi explorada ao máximo em Attack & Release, um dos álbuns que me chamou muito a atenção.

Junto com esse vício por produção baseada em textura, a escolha do arquiteto sônico Danger Mouse foi perfeita. O produtor se concentrou na disposição que a banda tem em se aventurar na ambientação criada pelo som e não em uma estrutura musical  de um hit feito para as rádios. O dever de Mouse foi incentivar o que já existe de melhor no duo entre composições relaxadas e pancadas sonoras ásperas. O álbum é recheado de detalhes sonoros às vezes tão astutos que é imperceptível aos ouvidos leigos. Um ar levemente psicodélico se materializa pelo álbum inteiro. A voz de Dan Auerbach, com vibrato sutil, sofrido e calmo, cria inveja perdoável a muitos vocalistas e é responsável por grande parte dessa sensação lisérgica.

Diferente das aventuras anteriores, em Attack & Release, a sintonia precisa entre a guitarra de Auerbach e a batera seca de Carney não é tão óbvia. Os riffs aqui são usados para dar mais cor às músicas e não força. Por esse motivo, algumas composições não grudam no cérebro logo de primeira. Não se engane e nem se desanime, isso foi proposital. O interesse do duo com este álbum foi criar as 11 faixas como pedaços minúsculos de uma obra maior direcionada para dar vida à uma atmosfera e sentimentos variados. Não precisa ouvir o disco inteiro para começar a imaginar um ambiente escuro onde o cheiro predominante é o de cigarro e whisky.

No geral, é mais uma prova de que as habilidades do Black Keys aprofundam na mesma medida em que se multiplicam. É ótimo acompanhar uma banda que esta interessada em ver até onde conseguem ir artisticamente e que, para a minha completa felicidade, agradar as massas nunca foi nem de perto a intenção.

 

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2 respostas para The Black Keys e a estrada para a perfeição.

  1. André disse:

    O mundo está carente de grupos que voltem à fonte primordial do blues para beber e se inspirar. Ficaram muitos filtros de baixa qualidade entre a música concebida no ambiente pré 1929 nos EUA e os anos do ‘entertainment way of life’.

    Houve um tempo em que a música, acredite, visava mais do que divertir. Embora também divertisse. Depois veio um tempo em que a música visava divertir. Embora também contestasse. Hoje vivemos numa fábrica de bandas que vem embaladas e distribuídas em prateleiras com prazo de validade. Robert Johnson gravou em 1936, e é um imortal da música que influenciou direta ou indiretamente todo o mundo que se põe à sombra da guitarra. Os Beatles e toda a geração ’60/’70 foram, em sua maioria, tão profundos em seus experimentos que alteraram definitivamente a forma como se pensava a música e mesmo o modo de escutá-la.
    A partir do final dos anos 70 a indústria fonográfica, como uma serpente entalada com o próprio rabo, cada vez mais insaciável por quantidade em vez de qualidade, entrou em franca decadência. Ainda houveram sopros decentes de vida musical, como o “movimento” grunge que, no início dos anos 90, peitou as barbies do metal oitentista e berrou com a voz suja que o rock ainda pertencia ao submundo. Claro que o submundo foi vendido, virou cenário de fundo da mtv e alguns “ídolos” perderam a vida estourando os miolos ou morrendo de overdose. Blá, blá, blá… essa história todo mundo já sabe.

    Voltando: Então… é sempre como uma lufada de ar puro no rosto, que percebo, de vez em quando, focos de sobrevivência daquela visceralidade ancestral, quando a guitarra distorcida ainda era decorrente de amplificadores escangalhados e o que se cantava era realmente o que se vivia.

    Essa Black Keys deve ser ouvida com atenção.

    Léo, parabéns pelo blog! (No dia em que quiser pirar num som desse naipe, vamos juntar as forças).

    Abraço!

  2. Cassio Renovato disse:

    Puta merda Chaça, vou ter que ouvir mais a porra dessa banda!!!!

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