O lamentável fim do Kings Of Leon

Ninguém é mais a favor de artistas que embarcam em novas empreitadas sonoras do que eu. Como já comentei antes, nada me agrada mais quando vejo bandas verdadeiramente dedicadas e talentosas testando os limites do próprio processo criativo. Estou longe de ser um daqueles insuportáveis puristas musicais. Mas quando uma banda que eu prezava como responsável por um dos melhores álbuns de estreia começou lembrar uma cria entre Bon Jovi e The Killers, tanto no som quanto na aparência, não deu pra ignorar.

Na época do Youth & Young Manhood

Descobri o Kings of Leon por acaso. Eu trabalhava em uma loja de cds e, durante a arrumação, vi uma capa que me chamou a atenção. Simples mas decisiva. Era Youth & Young Manhood. Na primeira rodada desse disco esperei até o meu horário de almoço e comprei o álbum. Durante meses fiquei obcecado com o estilo Allman Brothers e Creedence reinventado pelo grupo. A voz rouca e única de Caleb era bem vinda em um mar de mesmices. O segundo álbum é tão excelente quanto o primeiro, apesar da faixa The Bucket já começar a dar uma idéia do que seria o futuro do Kings Of Leon. O terceiro álbum tinha peso e uma atmosfera mais obscura com canções realmente épicas como Camaro e a belíssima Trunk.

Verdade, o visual não faz a banda. Mas é sempre bom analisar mais a fundo quando a mudança é desnecessariamente drástica:

Acompanhando o visual Capricho (boa Cássio!) e as roupas assinadas por estilistas famosos, a inspiração e o estilo distinto da banda caíram de forma lamentável. Quando Only By The Night foi lançado, eu estava mais empolgado do que qualquer um, mas só o reconheci como um disco da banda pela voz de Caleb. Deixei tocar várias vezes na loja para realmente me certificar de que não estava ouvindo coisas. Chegando em casa, baixei o disco e escutei inteiro. Uma das minhas maiores decepções musicais. Detesto ter que associar popularidade com mediocridade.

Pra não ser chamado de pretencioso, vamos às evidências: A faixa Sex On Fire rendeu ao Kings Of Leon um Grammy, sugerindo que é uma música amada por muitos. Mas trata-se de uma canção muito menos interessante e boba comparada ao primeiro single do grupo, Holy Roller Novocaine (eles nem tocam mais essa ao vivo), que se trata do mesmo assunto da canção premiada. Em Holy, a letra é infinitamente mais poética, cuidadosamente cantada e apresentada. Começa calma, precisa e é muito bem trabalhada até se erguer em um verdadeiro épico. É uma canção que canaliza bem suas influências “Nashvillianas” (levadas pra fazer bater o pé, acompanhar com palmas, vocabulário levemente bíblico e um pouquinho de subversão). Já Sex On Fire não impressiona nem um pouco. Os primeiros segundos já te apresentam como vai ser o resto da música. Só mudando no refrão. Letras sem imaginação e dedicação zero pela arte. O típico “verso-refrão-verso-todo mundo canta junto-refrão-fim“. Mais programada e maquiada pra tocar em rádio que isso impossível. Não vou nem comentar o desastre que é Use Somebody.

O motivo para essa triste mudança pode ser o mais simples: com sua levada country rock e o modo incendiário sulista de cantar e dicção propositalmente complicada , o som do grupo era perfeito para bares, pubs e ginásios pequenos. Uma atmosfera rock n’ roll dixie tradicional e ao mesmo tempo empolgante e inovadora. Já que é impossível um grupo com tanto talento tocar eternamente nesses ambientes mais íntimos, ficou claro que o som original da banda não se encaixava com plateias gigantescas. “Problema” que foi percebido durante a turnê com o U2. À medida que o sucesso inevitável (e merecido) alcançou o grupo, foi necessária uma adaptação do som para grandes estádios/arenas. Repito: adaptação do SOM, que deveria ser óbvia, mas não a desconstrução de um estilo tão promissor. Músicas como Notion e I Want You são de fazer um ouvinte mais atento se coçar de raiva.

Um exemplo de como essa banda já foi sensacional:

Ninguém me convence de que essa mudança toda, foi algo que os 4 brilhantes músicos, responsáveis por 2 dos discos mais fodas de southern rock da última década, sentaram e disseram um para o outro:”Então, vamos adotar um visual franja pro lado, que é justamente o que todo mundo está fazendo, vamos começar a usar ternos, fazer um som mais comportado e mais acessível, com umas letras mais tranquilas de cantar junto porque é isso que realmente queremos“. Porra nenhuma, jogada de marketing SIM! É normal quando uma banda jovem, na medida em que os anos passam, perca um pouco da ira e do vigor nos ataques sonoros. Mas a integridade jamais deveria fazer parte dessa transição.

Quando você encontra a mãe de um amigo seu em um supermercado cantarolando Use Somebody, alguma coisa saiu errado. Only By The Night e Come Around Sundown juntos, conseguem somar um total de 3 músicas que são, no máximo, decentes. No geral são discos sem alma, pouco inspirados e exageradamente produzidos. Se você, de primeira me ofereceu filet mignon com batata sauté e vinho do Porto, nunca vou esperar de você um miojo com Coca-Cola. Sacou?

Só escrevi tanto assim sobre esse assunto porque realmente me importava com essa banda, que já defendi com unhas e dentes em inúmeras ocasiões. E ver esse talento todo se tornar um devoto do banal, é uma tristeza honesta. Se a idéia foi crescer e evoluir musicalmente, deveriam ter prestado um pouco mais de atenção na carreira, por exemplo, do Oceansize, para aprender como se reinventar sem se ajoelhar.

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6 respostas para O lamentável fim do Kings Of Leon

  1. Cassio Renovato disse:

    Boa Chaça!!!! Kings é um bom exemplo de banda que tomou o rumo errado – do pantano para as revistas de adolescentes. Belo texto, parabéns pelo blog!!!

  2. Bruno disse:

    Os caras deixam de lado suas raízes porque querem ganhar fama e grana. Quando conquistam tudo o que queriam, o que ainda não é o caso do KOL, tentam voltar às origens. Ai já é tarde demais! Não lembro de bandas ainda na ativa que tiveram êxito ao tentar essa fórmula…

  3. André disse:

    Bom post, Léo! Como músico penso que existem bandas que se transformam de um disco para outro. Pink Floyd é um exemplo: cada disco mostra uma banda diferente, transformada! A diferença é que a qualidade se mantém. Compare o Atom Heart Mother com o Dark Side of the Moon. Duas sonoridades distintas, dois clássicos, a mesma banda.

    Ah, e claro, tem também aquelas outras bandas que fazem o caminho contrário ao Kings. Lembra do Pantera?

  4. Marcia Cogitare disse:

    Excelente os posts deste blog. Realmente não tenho visto blogs com tamanho senso crítico e que trazem coisas muito boas para os amantes de música.

    Já sobre os Kings, estes se venderam ao mercado e se perderam musicalmente, uma pena, tinha muita fé nesta banda.

    Hug

    • chacel disse:

      Valeu pelo comentário Márcia!

      Tinha dado uma folga nesse blog mas agora escrevo, sem falta, uma vez por semana pelo menos.

      Apareça mais!

      • Marcia Cogitare disse:

        Com certeza sempre estarei dando uma passadinha pra ler seus posts, realmente valem a pena.
        Foge totalmente de modismos, acho que foi isso que me atraiu.

        Hug caro Chacel

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